Alexandre Lucas
sábado, 26 de junho de 2021
segunda-feira, 7 de junho de 2021
O amor bateu na porta
Era um amor magro e calmo, ainda ria
Mas do amor a gente não espera nada
O amor bateu na porta, pulou a janela
E bateu na cara
O amor pediu desculpas
Derrubou a porta e a janela
E nunca mais o amor meu viu.
quarta-feira, 5 de maio de 2021
Era um preto
Já morreu velho
Quando pequeno achava que era branco, o preto velho
Quando apareceu meu cabelo branco
Descobrir que meu avô era preto
Acho que nem meu avô, um preto que já era velho
Não sabia de sua cor.
Alexandre Lucas
segunda-feira, 3 de maio de 2021
Comi um poema sorrindo
E com purpurina traquinando nos olhos
Enchi a boca de palavras e soprei como quem sopra sonhos
O poema chegava na barriga e acordava as borboletas
E elas saiam voando e pintando os versos
Dentre as palavras tinha bolo de cenoura e chocolate
Feito para compor a melhores partes do poema
A parte do tempo e do cuidado, do agrado e da maciez dos gestos.
Alexandre Lucas
sexta-feira, 16 de abril de 2021
Você abriu a porta com aquele vestido aparente seios
E uma voz macia que parecia fazer cama
Seu corpo nu configurava na tela atravessado de facas e
tesouras
Teus olhos cor de esperança declarava ternura
E escondia um turbilhão de segredos
Líquidos de uva, acalentava descobertas numa dislexia de
afetos
Tuas palavras recheadas de mãos me faziam sentir a dança das
folhas e os terremotos
Já conversávamos quase despidos, ainda não dava para ver as
cicatrizes
Apenas os olhos famintos de quem quer descobrir o mundo numa
noite
Enquanto isso nossos dedos se despediam com juras de cafuné.
Alexandre Lucas
sexta-feira, 9 de abril de 2021
O momento é de abrir igrejas e de
edificar valas
De erguer profetas do dinheiro e
da mentira
De esconder o evangelho em
butijas sem mapas
De fazer filas para o dízimo e
para morte
Quantos tombaram procurando deus
entre as paredes
E nos humoristas do ódio, travestidos
de pastores?
Mas o momento também é de negar a
mentira
De eleger outras verdades,
De colocar na balança a ciência e
a vida,
De segurar esperança e não desabraçar
do que deixa a alma em pé.
Alexandre Lucas
terça-feira, 6 de abril de 2021
Recebo confidências de amor em cartas rabiscadas de suor
Efêmeras paisagens de sonoridades
de prazer
Lacradas de segredos,
Se perdem nos quartos
As vezes encontramos abertas
Para lidas de saudade.
domingo, 28 de março de 2021
Existe meio-fio
Entremeio
Meia
Meia dúzia
A vida existe, sem meia vida
Uma vida que jamais pode ser meia, importa
Meia dúzia de vidas importam muito mais
Não será meia dúzia que não se importam
Que mataram direitos e sonhos.
Alexandre Lucas
sexta-feira, 26 de março de 2021
O amor veio numa barca
Era alto mar
O amor vinha, balançado
Quase virando,
O amor se aproximava
Mais ainda estava em alto mar
Era alto e era mar
Eu que não sabia nadar e tinha medo de alturas
Pensava em me jogar
O amor continua numa barca no alto mar
Quase virando
Sempre chegando.
Alexandre Lucas
sábado, 20 de março de 2021
Guardo segredos de amores espalhados
Tento
lembrar do último beijo
De quando
a barriga viu borboletas e os olhos se encheram de purpurina
Faz
tempo que reside passos lentos e abraços desacordados
Tento
acender uma fogueira batendo pedras em dias de chuva
Apesar
do frio, ainda guardo amores espalhados.
Alexandre Lucas
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
Tem um cachorro preso latindo por liberdade
Tem outro
De bucho cheio e solto
Travestido de bem, homem já é
Coturno verde e amarelo
Para aulas de continência
Versos de arma e ódio
Camufladas de Deus e de cidadania
Tem ossos espalhados
E cachorros famintos.
Alexandre Lucas
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
Chega com força, joga um monte de palavras
Dessas que faz a gente atolar de alegria
Fuxica sobre a beleza dos que vacilam
Aprender a caminhar sem atropelar
Desfaz-se das toxinas
Que tua boca espalha na beira do abismo, o ouvido
Fale—me umas coisas na beira dos olhos
Que me façam desejar andar contigo
Assim pode chegar com toda força.
Alexandre Lucas
O preto com outro preto
Beijou sem mentiras a verdade
Falou de corpos escondidos e de desejos encaixotados
Nada penteado, a realidade não tem maquiagem para filmagem
Beijou por mim, por nós e por quem se atenta
Beijou pelas pretas e pelos pretos
Beijou pelos corpos que se escondem todos os dias no armário
Pois não podem sair penteado para amar
Beiijou para hipocrisia da casa e do mundo
Beijou como devem se beijar os homens nas praças, sem dor e esconderijos
O preto beijou outro preto para todo mundo ver e alguns se doer
O problema não é do preto, muito menos do beijo
O problema talvez seja torturar o amor
Alisar a complexidade da vida
Dividir as carnes
Como no frigorífico, onde o preço é diferenciado.
Alexandre Lucas
A notícia anuncia que o café esfriou
E que o trabalhador tem que tomar alegremente frio
A sua força de trabalho
Na caminhada o filho e a amiga do trabalhador resolveram queimar a notícia e esquentar o café
Para não beber de tanta injustiça.
Aĺexandre Lucas
domingo, 8 de novembro de 2020
Estou vestida inadequadamente
Sair às pressas
O decote da vergonha já está esgaçado
A calça apresenta seus fios
brancos e a sua fragilidade
A a blusa aperta o coração cinzento.
O rosto foi maquiado de alegria
O cabelo está esticado para esconder a sua
abundância verdadeira
As flores já não precisam de água,
o seu plástico resiste.
Inadequadamente degusto os sonhos
da casa grande
Para se assemelhar aos seus donos.
Alexandre Lucas
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
Vamos beber devagarinho
Para sentir a água escorrer entre a língua
Vamos bebendo sem pressa
Beber pela manhã, pela tarde quente
A noite quando as casas fizerem silêncio
Pela madrugada, acordemos para beber mais um pouco da vida
Que nunca se bebe só.
Alexandre Lucas
domingo, 28 de junho de 2020
quarta-feira, 13 de maio de 2020
domingo, 10 de maio de 2020
sábado, 9 de maio de 2020
sexta-feira, 8 de maio de 2020
quinta-feira, 7 de maio de 2020
segunda-feira, 4 de maio de 2020
domingo, 3 de maio de 2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
quinta-feira, 30 de abril de 2020
quarta-feira, 29 de abril de 2020
terça-feira, 28 de abril de 2020
segunda-feira, 27 de abril de 2020
domingo, 26 de abril de 2020
Ele fica vazio, com poucas luzes, frio e cinzento
A porta ficar emperrada
Falta comida, palavras e alguém para escutar
As torneiras jorram lagrimas e os canos de tanta dor quebram
Fiquemos no relento
Olhando para os céus
Vendo as flores crescerem no horizonte e entre os nossos pés
Lembra? Já dormimos olhando para as estrelas
E num quarto quente que tinha formato de ferro de engomar
Caminhamos com bandeiras estendidas e divagamos sobre a vida
Tem um forno de saudade, em que o tempo vai aquecendo
Histórias de ternura e cumplicidade
Contínuo querendo dividir os cafés, chás e biscoitos
Saber dos teus sonhos e das luas, aquelas que são só tuas
Enquanto escrevo te vejo, uma balzaquiana indecifrável
Parece que algo parou no tempo, logo o tempo que não para
Nossos cachos precisam da luz dos nossos encontros
Prefiro a nossa casa que tem risos e onde posso te chamar de irmã
Onde a palavra camarada faz sentido,
Tratemos de desafazer desse apartamento, ele não nos cabe
Somos tão grandes juntos e ele fica tão espremido.
Alexandre Lucas
sexta-feira, 24 de abril de 2020
quinta-feira, 23 de abril de 2020
terça-feira, 21 de abril de 2020
domingo, 19 de abril de 2020
sábado, 18 de abril de 2020
sexta-feira, 17 de abril de 2020
quinta-feira, 16 de abril de 2020
quarta-feira, 15 de abril de 2020
terça-feira, 14 de abril de 2020
domingo, 12 de abril de 2020
sábado, 11 de abril de 2020
Com botas e palavras, com olhos esbugalhados e corações perfurados
O texto foi censurado e nossos nomes apagados
Tenho medo, quero abraçar meus camaradas
Pegar na mão e sair organizando os sonhos
Algo nos isola,
Parece que o lugar mais seguro são nossas casas,
Nem todos estão seguros
Na rua, o papelão é a única casa para alguns
Isso dói, porque minha casa continua sendo o mundo, nossas vidas
O desejo de dividir sorriso, terra e produção,
De ver nosso povo escrevendo nossa história
A ciência ampliando o bem viver
Para gente produzir, estudar e amar,
O poema não pode ser lido pela metade
Gosto de sentir o gosto do beijo e da comida
Esmagar os pesadelos,
Por nós e pelos nossos lutamos, o nosso verso não vai morrer
Lembro de Frida e o quanto as suas dores eram universais
Sinto, que não choro só, nosso choro nos banha de amor
Mesmo nada sendo permitido,
Ousamos sonhar
Amanhã vamos nos abraçar, olho no olho e brilhos
Ainda pula a coragem e a esperança se sacode
Hoje, continuamos fiando a nossa rede e nosso canto coletivo.
Alexandre Lucas