domingo, 17 de junho de 2018


Escutava-se do apartamento  blues e choros
Talvez já seja tarde para o abraço silencioso
Para conversa com agua e café
Mil desaforos e infinitas declarações de amores
Foram professadas do  mais  potente alto falante
Ninguém escutou
Esse silêncio é um cartão de visita sem volta
Um rio de lamentos  interrompido no caminho.

Alexandre Lucas     


Ainda namoro comigo e não é nada fácil
Tem dias que menstruo e nem quero  tomar banho
E obrigo  a me suportar
Tem horas que desejo  bailar na cama sem horas para cessar
Em outros o silêncio é a  melhor serenata
Têm dias de dores, esses são os piores
Parece que entramos no liquidificador
E não sabemos apertar os botões, aquele que para
Mas ainda bem que namoro comigo
E ainda não me encontrei com Maiakovski.

Alexandre Lucas       


Engasguei-me  com o assalto
Quando levantei as mãos
Já estava despido
Com frio e  medo
Encolhi-me  
Para escrever
Poemas chorosos de esperança.

Alexandre Lucas   

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O dia amanhece
O sol parece chorar
Na estrada caminhões parados
Faixas pedem intervenção militar
A afefalia desfila na estrada
A história foi enterrada numa butija sem mapa
Vamos escavar as estradas, desenterrar a história
Com militar nem greve, nem poesia
Atesta a história
Liquidificadores de sangue
Orquestrados nos porões
Silenciosos do poder
Maqueiam a ordem
Da tortura, censura e da frescura.

Alexandre Lucas

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Escuto um blues
Para desatender a tempestade
Da  boca molhada dos céus
Estamos distantes
Mas os trovões se fazem tão perto.

Alexandre Lucas 

quarta-feira, 23 de maio de 2018


Sozinho  no parto
Carregos nos braços o choro
O verso nasce do pranto
Das pernas abertas
Expulso a dor para nascer o poema.

Alexandre Lucas  

terça-feira, 22 de maio de 2018


Quando todas as vozes se calam e insistem  em anular o dialogo
Grito com as palavras,
Desocupo o entulho que me engasga
Retiro cada monstro que se instalou ao longo dos tempos
Gritar com as palavras é fácil e necessário.
Difícil mesmo é enrocasse num dialogo de suspiros, desses que nos fazem gozar.  


Alexandre Lucas
  


Despeço-me no meu silêncio manifesto

O corpo gélido já não abre alas e nem ruas

Não fecha e nem abre portas

O corpo tombou  na vida

Ela ( a vida)  que era tão besta

Resolveu acabar com a besteira

E o verso da carne se fez vida

Que não se refaz.

 

Alexandre Lucas   



Quero plantar flores, nunca plantei nenhuma
Até  tentei,  parece que não é fácil plantar flores
Quando se plantar flores, elas ficam ali paradas e depois morrem.
Nasceram novas flores e novamente novos cuidados
Mas fiquei pensando elas ficam paradas
Como seria se as flores me plantassem?

Alexandre Lucas      


Trabalho na escassez das minhas forças
Carrego caixas pesadas de informações
Trabalho com o coração, o meu
Ele não me parece de pedra ou de  aço
Acho que ele é de teia de aranha e não suporta muito peso
Ele pode disparar, acalmar ou ainda parar

Alexandre Lucas

segunda-feira, 21 de maio de 2018


Enquanto dormia
Falei com  deuses e diabos
Com orixás, duendes e ETs  
Com monstros e árvores
Pulei do precipício
Toquei fogo na casa
Fui a lua, cheguei perto do sol
Dei a volta ao mundo
Ainda continuo aqui
Enquanto você dorme.

Alexandre Lucas   

domingo, 20 de maio de 2018


Tiro a roupa
Para escrever cartas de amor
A cada linha descrevo o vestido que encobre  verdades não ditas.

Alexandre Lucas  

sábado, 19 de maio de 2018


Sempre me lembro do homem da esquina
Olhava sempre para baixo
Como se estivesse buscando a vida no chão
Os dias se passavam
O  homem só tinha a esquina que nem era sua
Um dia a esquina estava cheia,
E o homem já morto foi notado.

Alexandre Lucas   

Escrevo um poema de imagens
Nele vejo a boca  com os lábios enviesados
A ponta dos seios em forma de seta  
As pernas despidas
E uma carta para abraçar a alma
De fogo e afeto
No poema cabe tudo,
O desejo, a esperança, o objeto, o dejeto
O verso, a alma e o incerto
O poema atreve a mente   
Sem pontos, pontilha o infinito
Em canto e grito.

Alexandre Lucas 

sexta-feira, 18 de maio de 2018


Talvez eu tenha partido
Esperei o bom dia, boa tarde, boa noite
e até  a boa madrugada
 a roupa ficou empoeirada de tanto esperar
os rios secaram, as rosas murcharam   
e o fruto verde, numa amadureceu .

Alexandre Lucas


Escrevo  quando a alma chora e  quando ela rir
Escrevo quando o  acoite sangra
E quando o corpo treme  de prazer  
Escrevo na pele linhas gozadas
e versos  no ventre da   vida
sempre que necessito respirar, escrevo   
mas antes que tudo
Escrevo por que existo.

Alexandre Lucas    

sábado, 12 de maio de 2018


Primeiro privatizaram a buceta
Pensando  na propriedade da terra
Entre arames e símbolos cercaram a liberdade
Depois coisificaram o que não era coisa
Alargaram quadrados e diminuíram outros
Entre cacetes e bucetas,
Uma balança de uma justiça cega e assimétrica não dorme.

Alexandre Lucas  


O poema está engasgado
De dor e desejo
Como posso pelo poema
Grito e silêncio,
E ainda reinvento de acordo com o tempo

Alexandre Lucas

segunda-feira, 7 de maio de 2018


Talvez seja tarde
E o amor tenha sido uma  tigela de gelo
O corpo esteja estirado no canto frio do quarto solitário
Restam poemas escritos com o pulso sangrando
É tarde
E o galo já não canta.

Alexandre Lucas    

domingo, 6 de maio de 2018


Minhas palavras não serão polidas
Não escrevo joias
Elas poderão ser enormes e as chamarei de palavrão
É assim que devemos chamar as palavras grandes
Como paralelepípedo
Não serão feias ou bonitas, serão palavras
Onde está o  cu e o culto está os humanos
E só por isso existe a palavra.

Alexandre Lucas  


Vejo nas mãos dos meus pensamentos
Nossos corpos salientes de verso profano
Mordo o vento, apalpo as nádegas da espera
Retiro com a boca a calcinha verde
Ainda resta esperança
Chega com desejo e carne
Para que o poema nasça  composto
De gemido e gozo.

Alexandre Lucas  

sábado, 5 de maio de 2018


O amor  não tem  porta, muito menos chave
Não tem parede, nem teto
As vezes dorme no relento
Outras nos braços
Tem horas que dorme  nuzinho
Mas tem horas que fica vestido para o pólo norte
O amor é uma invenção complexa
Que nunca chega a ser completa
É uma certeza incerta
O amor é um texto escrito com várias mãos
Ele é tanta coisa
O amor é como a esperança
Dificilmente falta.  

Alexandre Lucas    

domingo, 29 de abril de 2018


Hoje vou para escola de camisa encarnada
De sandália de couro pintada de amarelo
De calça branca com listras  goiabas
Estou para decidi se vou de turbante ou boné aba reta
Quando chegar,  vou questionar o que nos cabe  
Cabe-nos saber, da ciência, da filosofia e das artes
Do que acontece no mundo, das lutas e da atmosfera   
Da decodificação da palavra, da economia e da ideologia
O que na escola não nos cabe
 É a festa  do pai , da mãe,   da santa e do santo
A oração só se for gramatical
Decidir quem deve amar quem
ou lugar de alguém, também não convém
Hastear a bandeira do conhecimento,
Essa deve ser a moral da escola
Para que dirigido aprenda a ser dirigente.  

Alexandre Lucas  

quinta-feira, 26 de abril de 2018


Faço-me companhia para o café e a conversa
Porque as paredes não escutam nada
o profundo verso, o grito estrondoso
o choro e nem uma prosa de amor
A vontade que tenho é  de quebrar as paredes
Talvez as paredes precisem ficar inteiras
Para acolher a companhia.

Alexandre Lucas

quarta-feira, 25 de abril de 2018


Rasgo a espera
Antes que se rasgue o estômago
Nado  em pétalas de sonhos rasgados
De  aguas salgadas
E de  cada despedaço faço uma colagem árida
Esperando a chuva chegar.

Alexandre Lucas  

terça-feira, 24 de abril de 2018


A garrafa está cheia de café e de pouca paciência
Os trabalhos se acumulam e as ideias se multiplicam
As nuvens de ideias vão surgindo e vou tocando
Às vezes sai uma valsa, outras só barulho
Enquanto isso faz calor  para rimar: penso em amor
Em fazer amor, sem pontos, sem vírgulas, sem pudores
O café me deixa acesso,  como o desejo  e a luta
Intenso,  são também os  dias.

Alexandre Lucas   

segunda-feira, 23 de abril de 2018


Durante a noite posso desaparecer
Como as cartas  que em tempos difíceis nunca chegaram
Deixo algumas cartas, sem endereços ou destinatários   
Escrevi  e fui deixando no caminho, umas mais apressadas
Outras densas e confusas,
Elas estão espalhadas  num mapa rasgado e perdido
as palavras que elas contém vão  se encaixando  com os gestos
e se arranjando num baralho que nem sempre é possível jogar.

Alexandre Lucas


O prazer foi enxotado
Com vassouras de pelos de prego
Estava deitado, ereto e viajante
O prazer estava despido
Com os lábios entre os dentes
E olhos arregalados de gosto
O prazer deitou-se no silêncio
Murcho, vestido e ferido
e adormeceu.

Alexandre Lucas    

domingo, 22 de abril de 2018


A criança falava baixinho
Estou com fome, mãe  
E a mãe achava que era apenas uma frescura
Em tom mais alto a criança repete
Estou com fome, mãe!
E a mãe irritada diz: chega!
Não houve a terceira, a criança se calou  
Morreu de fome.

Alexandre Lucas   


Língua livre
Para discursar  o desejo  
Empunhar a bandeira da  liberdade
Manifestar a rebeldia
Acolher o afeto
Língua para gestar a palavra e temperar o gozo
Que não nos falte a  língua,   no banquete dos afetos
E na procissão pela vida. 

Alexandre Lucas